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Avaliação in vitro da força de adesão de materiais de colagem em ortodontia: Ensaios mecânicos de cisalhamento

Avaliação in vitro da força de adesão de materiais de colagem em ortodontia: Ensaios mecânicos de cisalhamento

Com a finalidade de embasar cientificamente os ortodontistas na escolha do material de colagem de acessórios ortodônticos, este trabalho avaliou in vitro a força de adesão de diversos materiais de colagem, atualmente disponíveis por meio de ensaios mecânicos de cisalhamento, conforme norma ISO/TR11405. Embora todos os materiais testados tenham apresentado força de adesão clinicamente adequada, o adesivo hidrofílico Ortho Solo (Ormco) proporcionou força de adesão significativamente maior quando comparado aos demais.


Resumo:
Com a finalidade de embasar cientificamente os ortodontistas na escolha do material de colagem de acessórios ortodônticos, este trabalho avaliou in vitro a força de adesão de diversos materiais de colagem, atualmente disponíveis por meio de ensaios mecânicos de cisalhamento, conforme norma ISO/TR11405. Embora todos os materiais testados tenham apresentado força de adesão clinicamente adequada, o adesivo hidrofílico Ortho Solo (Ormco) proporcionou força de adesão significativamente maior quando comparado aos demais.

Palavras chave:
Material colagem ortodôntica; Cisalhamento; Força adesão.

Abstract:
In order to scientifically ground the orthodontists choice of bonding material of orthodontic accessories, this work evaluates in vitro, the bonding strength of several different adhesive materials, commonly available at the market, by means of mechanical shear tests, in accordance with norm ISO/TR11405. Although, all the materials tested showed clinically adequate adhesive strength, may it be noted that the hydrophilic Ortho Solo (Ormco) showed a significantly ber bonding strength when compared to the others.

Key-words:
orthodontic bonding, dental materials, shear bond strenght

Introdução
    Desde o início do século XX, quando Edward Angle patenteou várias invenções, incluindo bráquetes e a Técnica do Arco de Canto, vários avanços tecnológicos têm contribuído para o aperfeiçoamento e a melhora da qualidade técnica dos acessórios ortodônticos. Uma vez disponíveis bons acessórios, um outro aspecto torna-se fundamental para a sua utilização: a fixação aos dentes de modo clinicamente eficaz.
    Historicamente, a estratégia inicial de fixação dos acessórios ortodônticos à coroa dentária, foi a utilização do aparelho fixo com bandas em todos os dentes. Segundo Zachrisson 16 (1994), muitas eram as desvantagens desse procedimento: a dificuldade de higienização, a complexidade e a morosidade de sua execução clínica, o
comprometimento da estética, entre outras. Assim, a técnica de colagem direta dos acessórios ortodônticos foi um avanço imprescindível para o desenvolvimento, simplificação e expansão da ortodontia.
    O condicionamento ácido do esmalte dentário, introduzido por Buonocore 3 em 1955, foi o passo decisivo para o aperfeiçoamento das técnicas de fixação direta dos acessórios ortodônticos aos dentes, com muitas vantagens, tendo em vista a sua simplicidade, a diminuição do tempo de cadeira, a melhora da estética e segundo Boyd 2 (1982), a menor agressão ao periodonto.
    Nesse sentido, as pesquisas buscam desenvolver um material adesivo que apresente características físico-químicas e mecânicas atendendo às necessidades clínicas tais como: a) Força de adesão suficiente para suportar os esforços da mastigação e as forças geradas pela mecânica ortodôntica; b) Ser compatível com o tempo de trabalho clínico, permitindo o posicionamento preciso dos acessórios; c) Remoção dos acessórios ortodônticos sem danificar o esmalte dentário 11, 16.
    A associação do condicionamento ácido do esmalte com as resinas compostas a base de BIS-GMA tem sido desde a década de 80 o método de colagem de escolha e o objeto de muitos estudos em virtude dessa combinação apresentar força de adesão e estabilidade dimensional clinicamente satisfatórias.
    Atualmente, encontram-se disponíveis diversos materiais de colagem e, a fim de auxiliar a escolha do clínico, este estudo avaliou a força de adesão de diferentes materiais utilizados para a colagem de acessórios ortodônticos.

Revisão da Literatura
   Cueto4 (199) relatou que em 1966 foi desenvolvida uma técnica de colagem direta de bráquetes ortodônticos no Departamento de Ortodontia do Eastman Dental Center (New York). O adesivo experimental consistia em um líquido (metil-2- cianocrilato) e um pó (partículas de silicato), que após sua manipulação apresentava um
tempo de trabalho de 1 minuto e a presa completa de 2 a 4 minutos. Previamente à colagem, os dentes eram limpos com pasta de pedra pomes e água, secos, condicionados com uma mistura de ácido fosfórico a 50% e óxido de zinco a 7% por 45 segundos, lavados com água e secos novamente. As colagens eram indicadas apenas para os incisivos superiores e aos caninos. Segundo o autor, somente um pequeno percentual de
bráquetes descolou durante tratamentos que duraram de 8 a 18 meses. Com esse relato clínico, Cueto afirmou tratar-se das primeiras colagens diretas em ortodontia realizadas com sucesso.
    Continuando a busca por um sistema adesivo confiável, Newman et al.8 (1968) avaliaram várias formulações de resinas à base de metil metacrilato como opção para colagem de bráquetes plásticos. Os autores relataram, resumidamente, a realização de mais de dois mil ensaios de cisalhamento, utilizando incisivos de humanos, nos quais a superfície vestibular foi condicionada com ácido fosfórico a 40% e colado um acessório de policarbonato. Como experimentos complementares, foram realizadas medidas doângulo de contato superficial do adesivo e avaliações do efeito da contração de polimerização e da imersão em água sobre a força de adesão. Os resultados demonstraram uma grande variabilidade nos valores de resistência ao cisalhamento, sendo a formulação com ácido metacrílico a 30% a que apresentou maior reprodutibilidade, com média de força de adesão de 3,24 MPa. O condicionamentoácido do esmalte reduziu em mais de 50% o ângulo de contato superficial, diminuindo significativamente a tensão de superfície, facilitando o “molhamento” do esmalte pelo
adesivo e, conseqüentemente, aumentando a adesão.
    Newman9, em 1969, publicou uma revisão do estágio em que se encontravam suas pesquisas sobre colagem direta em ortodontia. O condicionamento do esmalte comácido fosfórico foi considerado indispensável para uma melhor performance do adesivo, pois além de aumentar a rugosidade superficial, diminui a tensão de superfície do esmalte, facilitando a sua penetração. Quanto ao adesivo, por ter obtido resultados
insatisfatórios com cianocrilatos, poliuretanos, poliésteres e resinas epóxicas, as resinas acrílicas apresentaram-se como o material de escolha, até o momento. Por fim, o autor descreve três casos clínicos de pacientes com má oclusão de Classe II, l. ª divisão (Angle), tratados com sucesso, tendo os dentes anteriores superiores colados.
    Em 1975, Reynolds11 realizou uma completa revisão sobre as colagens em ortodontia. Como consenso, concluiu que a técnica de condicionamento do esmalte, com ácido fosfórico melhorava significativamente a adesão, sem causar grandes danos à superfície dentária, portanto sendo indispensável. Como principais causas das falhas nas colagens, foram citadas: 1) A contaminação com unidade e 2) A ação de forças
excessivas sobre os acessórios ortodônticos.
    Newman et al.10 (1994) realizaram uma avaliação in vitro de vários adesivos ortodônticos, com diferentes modos de polimerização (pasta única: Contacto com flúor, Alpha-Dent One-Step, Bond I e Rely-a-Bond com flúor; pasta/pasta: Concise Bondmor II e adesivo experimental com flúor; fotopolimerizados: Contacto-Lite e Transbond). Foram realizados ensaios de cisalhamento, utilizando um total de 525 dentes extraídos
de humanos (incisivos centrais e laterais). Em todos os grupos o esmalte foi condicionado com ácido fosfórico a 37% por 30 segundos. Após as colagens, os corpos-de-prova foram termociclados (5-55 ° C) com 1.500 repetições, durante 14 dias. Os resultados revelaram que os adesivos pasta única apresentaram resistência ao
cisalhamento inferior aos pasta/pasta e fotoativados, sendo que o menor valor de força de adesão foi verificado no material Rely-a-Bond.
    Sinha et al.14 (1997) compararam, por meio de testes de resistência ao cisalhamento, resinas compostas com flúor com resinas convencionais disponíveis comercialmente. Dentre as resinas com flúor analisadas duas eram fotoativadas (Light bond – Reliance e Sequence – Ormco) e uma autopolimerizável sem flúor, sendo cinco
fotoativadas e seis autopolimerizáveis. Os ensaios mecânicos foram realizados utilizando 210 incisivos bovinos recém extraídos, divididos aleatoriamente em grupos de 15. Os resultados demonstraram que a força de adesão das resinas com flúor, tanto as fotoativadas quanto as autopolimerizáveis, é semelhante à das resinas convencionais, o que as credencia para uso clínico de rotina.
    Bishara et al.1 (1999) avaliaram opções alternativas para a colagem de bráquetes, comparando a resistência ao cisalhamento de uma resina composta fotoativada (Transbond – 3M Unitek), a associação dessa mesma resina com um adesivo dentinário (Clearfil liner Bond 2 – JC Morita) e um CIVMR para forramento (Fuji Bond LC – GC). Setenta molares humanos, recentemente extraídos, foram limpos e aleatoriamente divididos em três grupos: Grupo I – colagem com resina composta, tendo o esmalte recebido condicionamento com ácido fosfórico a 37%, por 30 segundos; Grupo II – colagem o CIVMR e esmalte condicionado com ácido poliacrílico a 20%, por 10 segundos e Grupo III – colagem com a mesma resina composta do grupo I, sendo que o
esmalte foi tratado por 30 segundos com um adesivo dentinário (“primer acídico”), contendo ácido fenil-P e monômeros hidroxietil metacrilato (HEMA) e dimetacrilato. Após as colagens, os espécimes foram armazenados, imersos em água deionizada a 37 ° C, por 48 horas e realizados os ensaios de cisalhamento. Os resultados indicaram que o grupo I apresentou força de adesão média significativamente maior que os demais, bem
como o grupo III obteve resistência ao cisalhamento estaticamente inferior aos dois outros grupos analisados. Segundo os autores, até o momento, a combinação de resina composta com o condicionamento do esmalte ainda é a técnica de escolha quando se busca resistência e confiabilidade.
    Em 2000, Simplício15 avaliou in vitro alguns adesivos ortodônticos quanto à força de adesão, padrão de descolagem e potencial cariostático. Com relação à força de adesão, após a realização de ensaios mecânicos de cisalhamento, foram observados maiores valores para as resinas Concise (3M) e Sequence com Fluorobond (Ormco). Com resistência intermediária ficaram a resina Rely-a-Bond e o cimento de ionômero de vidro modificado por resina (CIVMR) Fuji Ortho LC (GC) quando utilizado com condicionamento do esmalte (seja com ácido fosfórico a 37% ou ácido poliacrílico a 10%). A menor força de adesão ocorreu no grupo do CIVMR Fuji Ortho LC no qual não foi realizado condicionamento ácido do esmalte. Entretanto, o único material com
capacidade de reduzir a desmineralização do esmalte observada durante o desenvolvimento de lesões de cárie artificiais, foi o CIVMR Fuji Ortho LC. Vale ressaltar que apenas nos grupos com maior força de adesão foram detectadas fraturas de esmalte após a descolagem.
    Grandhi et al.5 (2001) avaliram in vitro a efetividade do uso de um adesivo hidrofílico para colagem em esmalte contaminado com saliva ou com água, tendo como controle a resina Concise (3M). Os resultados de resistência ao cisalhamento demonstraram que a associação do adesivo hidrofílico com a resina fotoativada
Transbond XT possibilitou a colagem, com sucesso, de bráquetes em meio úmido.
    Em 2002, Schaneveldt & Foley12 analisaram comparativamente dois adesivos hidrofílicos (Assure – Reliance / MIP – 3M) por meio de ensaios de cisalhamento. Para tanto, utilizaram 240 premolares humanos divididos em grupos de 40 dentes, sendo um controle (Resina Transbond XT – 3M) e cinco experimentais variando as situações de contaminação com saliva. Os resultados evidenciaram que ambos os adesivos testados
promoveram uma adequada força de adesão para o uso em ortodontia, mesmo com a contaminação da área de colagem com saliva, quer seja antes ou após a aplicação do adesivo. Ainda com relação a essa variável, foram obtidos maiores valores de resistência ao cisalhamento quando a contaminação com saliva ocorreu após a aplicação do adesivo ao esmalte.

Proposição
    Este estudo se propôs a avaliar in vitro a força de adesão de diversos materiais de colagem de acessórios ortodônticos, por meio de ensaios mecânicos de cisalhamento, conforme descrito na Norma ISO/TR114056

Material e método
    Foram utilizados neste experimento 72 premolares superiores e inferiores humanos, extraídos por motivos ortodônticos. Após as exodontias os dentes foram lavados com água destilada e conservados em solução de formol 2%, à temperatura ambiente. Para a seleção, foram examinados com auxílio de uma lupa sendo descartados aqueles que apresentavam imperfeições no esmalte. Os dentes foram incluídos em uma
forma plástica preenchida com gesso pedra tipo IV (Fig.1) e no momento da inserção dos dentes procurou-se deixar as faces vestibulares perpendicular ao solo.
    Os corpos-de-prova foram divididos em grupos de 12 para cada para material pesquisado, conforme abaixo:

Grupo 1 – Transbond (3 M)
Crupo 2 – Fill Magic Ortodontica (Vigodente)
Grupo 3 – Enlight (Ormco)
Grupo 4 – Ortho Solo com Enlight (Ormco)
Grupo 5 – Super Bond ( Ortho Source)
Grupo 6 – Super Bond (Aditek)
O acessório ortodôntico utilizado em todos os grupos foi um bráquete edgewise para colagem de premolares (Morelli referência 10.30.208).
 
Figura 1 – Corpo de prova com bráquete colado.
 
    Para a colagem dos acessórios todos os dentes foram submetidos a um preparo prévio que obedecia ao seguinte protocolo:
a) Profilaxia da superfície vestibular utilizando pedra pomes e taça de borracha, em baixa rotação, por 15 segundos, renovando a taça a cada cinco polimentos;
b) Lavagem da superfície polida com jato de água e spray por 15 segundos;
c) Secagem com jato de ar livre de umidade por 15 segundos;
d) Condicionamento ácido do esmalte dentário com ácido fosfórico a 37% sob a forma de gel, por 30 segundos;
e) Lavagem da superfície condicionada com jato de água por 20 segundos;
f) Secagem posterior ao condicionamento por 15 segundos com jato de ar livre de umidade;
g) Verificação da superfície tratada para confirmação da característica
esbranquiçada e opaca do esmalte confirmando o sucesso do condicionamento ácido.

    Após este preparo prévio igual para todos os grupos, o processo de colagem foi realizado seguindo rigorosamente as recomendações dos fabricantes em todos os aspectos.

Grupo 1 – Transbond (3 M ) – Foi aplicado Adhesive Primer ao dente e a resina em pasta Light Cure Adhesive Paste foi aplicada à base do bráquete.
Grupo 2 – Fill Magic Ortodontica – A resina foi aplicada na base do bráquete e não foi aplicado nenhum adesivo ao dente. O bráquete foi posicionado e a resina fotopolimerizada por 40 segundos.
Grupo 3 – Enlight (Ormco) – O adesivo enlight foi aplicado ao dente e a resina ao bráquete. Depois de posicionado, a resina foi exposta a fotopolimerização por 40 segundos.
Grupo 4 – Ortho Solo com Enlight (Ormco) – O adesivo Solo foi aplicado ao dente e polimerizado por 30 segundos. A resina Enlight foi aplicada à base do bráquete e após o posicionamento a resina foi fotopolimerizada por 40 segundos.
Grupo 5 – Super Bond ( Ortho Source) – O adesivo foi aplicado ao dente e à base do bráquete. A resina foi aplicada à base do bráquete, o qual foi posicionado e aguardou-se a reação química de presa do material, não sendo fotopolimerizado.
Grupo 6 – Super Bond (Aditek) –– foi realizado o mesmo procedimento do grupo 5, pois trata-se de material ativado quimicamente.

    Para a fotopolimerização foi utilizado o aparelho Ultralux (de equipo), marca Dabi Atllante que apresenta uma fonte de luz halógena de intensidade 400 MW/cm2.
    Logo após a confecção, os corpos-de-prova foram armazenados em temperatura ambiente por 48 horas. Após este período, foram submetidos aos ensaios mecânicos de cisalhamento na máquina (Fig. 2) de ensaio universal MEM 2000 (Equipamentos de Ensaios Ltda, São José dos Pinhais, Brasil), com uma velocidade de carga 0.5mm/min, até a ruptura da união bráquete-dente. Este ensaio foi executado segundo os critérios
especificados na Norma ISO/TR114056, e especialmente para esta pesquisa foi desenvolvido um cinzel (Fig. 3) que se adaptava perfeitamente aos acessórios utilizados (Fig. 4). A tensão de cisalhamento foi calculada a partir da carga aplicada pelo cinzel, sendo:



Onde: τ é, a tensão ao cisalhamento; F, a força aplicada; e A, a área de união..
 
Figura 2 – máquina ensaio universal MEM 2000
 
Figura 3 – cinzel especialmente preparado para esta pesquisa
 
Figura 4 – Verificação da adaptação do cinzel ao acessório
 
RESULTADOS
 
    Os resultados de carga de ruptura da união bráquete/dente (em N) constam do Quadro a seguir:

    QUADRO 1. Cargas de ruptura (em N) segundo material.
 
 
    Aos dados originais constantes do Quadro 1, foi aplicada análise de variância a um critério fixo, referente a “ Material”, conforme tabela 1:
 
Tabela 1. Análise de variância para carga de ruptura segundo “Material”.
 
Fonte de variação
g.l.
SQ
QM
F (int. 5%)
Material
5
304893,555
60978,7111
11,42 *
Resíduo
66
352444,941
5340,0748
 
Total
71
657338,497
   
 
      • = significativo
 
Pode ser observada a significância estatística para o fator “material”, ou seja, diferentes materiais poderão promover diferentes cargas de ruptura. Assim, procedemos aos contrastes estatísticos para as médias de carga de ruptura para cada material, empregando o teste de Tukey.
 
Tabela 2. Médias de carga de ruptura ( em N ) segundo material.
 
Material
Média N
Contraste (Tukey 5%)
Transbond
258,56
87,756
Fill Magic
151,63
 
Enlight
258,70
 
Ortho Solo+Enlight
366,34
 
Super Bond Ortho Source
264,79
 
Super Bond Aditek
207,14
 
 
    O material Fill Magic promoveu a menor carga de ruptura media (151,63 N / 11,7 MPa) e o material Ortho Solo+Enlight promoveu a maior (366,34 N / 27,7 MPa).
     Os materiais podem ser agrupados em 3 grupos, de menor a maior carga de ruptura, conforme esquematizado abaixo:

Grupo A: Fill Magic; Super Bond Aditek.
Grupo B: Super Bond Aditek; Transbond; Enlight; Super Bond Ortho Source.
Grupo C: Grupo D: Ortho Solo+Enlight.

    O material Super Bond Aditek estatisticamente comportou-se semelhante ao material Fill Magic e aos materiais Transbond, Enlight e Super Bond Ortho Source.

    O comportamento dos materiais distribuídos nos quatro grupos, segundo a análise de Tukey, pode ser visualizado no Gráfico1:
 
 
Gráfico 1 - Distribuição dos matérias segundo os grupos de Tukey em relação à média de carga de ruptura (Newton). Letras diferentes representam diferenças estatisticamente significantes.
 
DISCUSSÃO

    Nos tempos atuais, a eficiência profissional é cada vez mais considerada no estabelecimento da relação custo-benefício e no cálculo do valor da hora de trabalho. Nesse sentido, o tempo despendido para realizar os procedimentos tem grande importância. No caso da ortodontia, a busca por um material adesivo que garanta maior eficácia clínica é um fator que desperta grande interesse para estudos laboratoriais e para o uso clínico. Com relação às pesquisas in vitro, as avaliações da força de adesão tem se destacado nesse campo de investigação.
    Há vários tipos de ensaios mecânicos, dentre esses se destacam: cisalhamento, tração. Em Ortodontia, os ensaios de cisalhamentos são os mais utilizados, pois, segundo Millett & McCabe, eles representam, aproximadamente, o que ocorre clinicamente. Vale ressaltar, que a obtenção da tensão de cisalhamento em sistemas utilizados para a colagem de acessórios ortodônticos depende do paralelismo entre a
linha de ação da fonte de força e a superfície de união. Na prática, em testes de cisalhamento sempre estão associadas outras forças resultantes do não paralelismo citado acima e de momentos fletores, como pode ser observado na Figura 1.
 
 
Figura 1 - Esquema ilustrando o desenvolvimento das forças em um corpo de prova submetido ao ensaio de cisalhamento de acordo com a Norma ISO/TR11405, (ISO,1994)
    Ainda que na realidade não exista in vivo um cisalhamento puro pelo fato de diferentes forças estarem atuando combinadas sobre a união, os resultados ‘in vitro’ são significantemente afetados como confirmado por Silva (2001). Mesmo assim, neste trabalho foi adotado a metodologia apresentada na Norma ISO/TR114056, pelo fato de ser a única padronizada para ensaios de cisalhamento.
    Na maioria das vezes, as descolagens de bráquetes ocorrem devido a interferências oclusais ou mastigação de alimentos ou objetos rígidos, ações indutoras da associação de tensões de cisalhamento, torção e compressão.
    De acordo com os resultados do presente estudo, o Grupo 2 (Fill Magic) apresentou força de adesão significativamente menor do que todos os demais (média de 11,7 MPa ). Isto ocorreu possivelmente em virtude de dois aspectos principais: 1) por apresentar somente a resina com carga e não um adesivo. De acordo com o Newman et al.8 (1968) uma superfície condicionada tem sua adesão aumentada pelo “molhamento” do esmalte pelo adesivo. Neste caso, os dados sugerem que a ausência do adesivo comprometeu significantemente os resultados da resistência ao cisalhamento; 2) por apresentar um baixo conteúdo de partículas inorgânicas, o que diminui a resistência desse material tanto na sua força adesiva quanto na coesiva. O conteúdo de partículas
inorgânicas influencia diretamente a resistência das resinas compostas, haja vista os resultados obtidos há décadas com materiais com alto teor de carga, tais como a resina Concise (3M) que por muito tempo foi utilizada como referência nos estudos de força de adesão.
    O Grupo 6 -Super Bond – Aditek apresentou média de carga de ruptura (207,14N / 15,9 MPa) maior que o Grupo 2, entretanto menor que os demais grupos. Nas resinas do tipo pasta única (no mix) o catalisador é aplicado sobre o dente e na base do bráquete, enquanto que a pasta é colocada sobre essa última. Por tratar-se de um material de polimerização química e sem manipulação prévia a seu uso, o catalisador (líquido) é misturado à pasta base apenas pela pressão exercida no momento do posicionamento do bráquete. Tal procedimento pode levar à polimerização incompleta de algumas porções do material o que compromete a sua resistência e dificulta a homogeneidade dos resultados desse sistema de colagem. Resultados semelhantes foram observados por Simplício (2000) quando da avaliação de uma resina com esse padrão de polimerização.
    O Grupo 5 -Super Bond – Ortho Source (264,79 N / 18,2 MPa), apesar de possuir o mesmo mecanismo de polimerização, foi estatisticamente superior ao Grupo 6, demonstrando uma grande variabilidade nessa forma de polimerização. Os grupos 1 (Transbond 258,56 N / 19,9 MPa) e 3 (Enlight 258,70 N / 19,6 MPa) apresentaram
valores de força de adesão equivalentes ao Grupo 5 e compatíveis aos resultados observados em outros estudos que avaliaram resinas fotoativadas (Newman et al.10 1994; Bishara et al.1 1999, Simplício15 2000).
    O grupo 4 -Ortho Solo associada Enlight (366,34 N / 27,7 MPa) apresentou força de adesão maior que todos os demais grupos. Comprovando que o adesivo hidrofílico Ortho Solo (Ormco) aumentou significantemente a resistência ao cisalhamento, uma vez que o uso da resina Enligth com seu adesivo convencional (Grupo 3) produziu valores menores que quando associada ao citado adesivo. O adesivo Ortho Solo possui algumas características que podem justificar tal desempenho: não sofre influência de contaminações por umidade e apresenta cargas inorgânicas na sua composição com 25% de sílica. Tais propriedades representam um avanço desta nova geração de adesivos hidrofílicos, já que as principais causas de insucesso das colagens são: contaminação do esmalte condicionado por saliva ou água e interferências oclusais.
    Vale ressaltar que todos os materiais avaliados apresentaram força de adesão adequada para uso clínico, acima dos valores mínimos preconizados por Reynolds (1975)11, como sendo entre 6 e 8 MPa. Entretanto, são sempre necessários estudos clínicos a longo prazo para fortalecer com evidências científicas a eficiências de tais
materiais. Cada profissional deve selecionar os materiais de colagem ortodôntica sempre analisando, de forma crítica, suas composições, propriedades de trabalho e fundamentação científica.
 
CONCLUSÃO
 
Com base nos resultados obtidos e de acordo com a metodologia utilizada, concluímos:
 
(a) Todos os materiais testados apresentaram força de adesão adequada para uso clínico;
(b) O uso de um adesivo hidrofílico de última geração (Ortho Solo - Ormco) proporcionou um aumento significativo da força de adesão, quando comparado aos demais materiais analisados.
 
Agradecimento: Pesquisa realizada e financiada pelo Alpha Smile Centro de Cursos e Pesquisas Odontológicas.
 
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
 
1 - BISHARA, S. E. et al. Shear bond strenght of composite, glass ionomer, and acidic primer adhesive systems. Am. J. Orthod. Dentofacial Orthop., v.115, p. 24-8, 1999.

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3 - BUONOCORE, M.G. A simple method of increasing the adhesion of acrylic filling material to enamel surface. J Dent.Res., v.34, p. 849-53, 1955.

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5 - GRANDHI, K.R., COMBE, C.E., SPEIDEL, M.T. Shear bond strength of stainless steel orthodontic brackets with a moisture-insensitive primer. Am J Orthod Dentofacial Orthop., v. 119, p. 251-255¸ 2001.

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8 - NEWMAN, G.V., SNYDER, W. H., WILSON JR. C. E. Acrylic adhesives for bonding attachments to tooth surfaces. Angle Orthod., v.38, p.12-8, 1968.

9 - NEWMAN, G.V. Adhesion and orthodontic plastic attachments. AM. J. Orthod., v.56, p. 573-88, 1969.

10 - NEWMAN, G.V. et al. Update on bonding brackets: an in vitro survey. J. Clin. Orthod., v. 28, p. 396-402, 1994.

11 - REYNOLDS, I.R. A review of direct orthodontic bonding. Br J. Orthod., v.2, p. 171-8, 1975.

12 - SCHANEVELDT, S., FOLEY, T. F. Bond strength comparison of moistureinsensitive primers. Am J Orthod Dentofacial Orthop., v. 122, p. 267-73, 2002.

13 - SILVA, T. B. C. Ánálise da tensão de cisalhamento em sistemas adesivos dentinários. Tese (Mestrado em Reabilitação Oral) Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 2002.

14 - SINHA, P.K. et al. In vitro evaluation of matriz-bound fluoride-releasing orthodontic bonding adhesives. Am. J. Orthod. Dentofacial Orthop., v. 111, p.276-82, 1997.

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16 - ZACHRISSON, B.U. Bonding in orthodontics. In: GRABER, T.M., VANARSDALL, R. L. Orthodontics: current principles and techniques. St Louis: Mosby, 1994, cap. 10, p.542-626.
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